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POEMA

Manoel de Barros me aconteceu de manhã… à tardezinha esse era o único perfume que eu ouvia.


“QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA?”

Domingo, dia de ler os jornais. Sempre que passeio por suas páginas, em papel ou na tela, surpreendo-me com as notícias e me dou conta de que, infelizmente, o jornalismo trilhou o caminho mais fácil: o de acreditar no real. O cinema, a pintura, a fotografia, o teatro, a literatura, talvez por terem menos apego ao poder e a esse exílio na objetividade em que o jornalismo tanto se imbricou, caminharam pela complexa e nobre estrada das artes. O que o jornalismo não sabe (ou não pode saber) é que a existência humana é uma tradução inconsciente, sem autor. O Real (agora sim, com maiúscula) não pode ser objetivo porque ele é como um cavalo sem sela, impossível de ser capturado. Mas como já dizia Caetano, quem lê mesmo tanta notícia?


BANDO DE LOUCOS

O louco, por não ter as amarras do discurso e por ser, assim, interditado em sua fala, é para a sociedade conservadora o pior dos perigos.

Na Idade Média, o louco era o vidente do futuro. Simples imaginar que, por sua natureza livre, falava a verdade do inconsciente. Livre pois não recebia as amarras do tempo presente; assim sendo, só poderia ser alojado no discurso futuro, aquele que não aconteceu, ou talvez aquele que nunca foi proferido.

“Todo esse imenso discurso do louco retornava ao ruído; a palavra só lhe era dada simbolicamente, no teatro onde ele se apresentava, desarmado e reconciliado. Visto que representava aí o papel da verdade mascarada” (Michel Foucault, A ordem do discurso, p.12).

O futebol, dentro de seu teatro, exerce uma autofagia da razão. Por ser, em suas próprias limitações de regras, um rompimento com o presente e um grito irracional com o futuro, preenche o espaço da loucura interditada, tendo assim espaço para desvios como a violência animal e o fanatismo, distorção da antiga loucura dos sábios.


INVENÇÕES DA INFÂNCIA XI

17/01/2012
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O TUBARÃO E A ESTRELA

Naquele verão de 1976, ninguém entrou na água. Não sei pelos adultos, pois o mundo adulto não se preza à fantasia. Mas meus amigos e eu havíamos assistido ao filme Tubarão e o medo de ouvir aquela música de John Williams em pleno oceano nos aterrorizava. Eu me lembro que fui para uma praia em Ubatuba, levado por uma tia. O nome dessa minha tia é Estrela – e por ter esse nome fora das outras tias, fazia de mim um garoto diferente.
Ao meu tempo de adolescência, quando todos gostavam de rock, eu ouvia black music e essa tia de nome tão interessante e incomum me fazia acreditar que Ubatuba também o era. Eu poderia ter ousado mais, pensando agora, talvez tivesse entrado no mar, ou talvez tivesse comido a lagosta que a Estrela me trouxe ao invés do filezinho sem graça que eu preferi. Realmente o medo tomou conta de nós naquele verão de 1976.


INVENÇÕES DA INFÂNCIA X

O REI DE COPAS NA PRAIA

Em um final de tarde, quase fim de verão no Guarujá, eu me dei a atirar longe um velho baralho do meu avô. Ele achava graça de ver aquela criança usando o baralho como os vilões dos seriados japoneses. Cada carta tinha uma onomatopéia diferente, algumas, sons de mulheres; outras, sons de meninos, pois os barulhos masculinos serão sempre de meninos.

No começo da noite, meu avô pediu para eu recolher aquela bagunça e eu guardei todas as cartas, menos o rei de copas, que por lá ficou. Aquele foi o último dia do verão e, no ano seguinte, sabendo da desistência do rei de copas em cumprir seu papel, permanecendo junto às outras cartas, atravessei a casa numa corrida sem fôlego e o encontrei lá no fundo, feliz com seu novo destino, meio grama, meio árvore, meio musgo.

Então me dei conta de que todos os objetos, mesmo os desimportantes, precisam de liberdade. Ainda assim, contei para o resto do baralho que o rei de copas havia desaparecido, não queria com isso criar uma revolução.


O DISCURSO QUE HABITO

“Não é possível articular o que quer que seja sobre a incidência da castração sem isolar a noção de privação, na medida em que ela é aquilo que chamei de um furo no Real” (Jacques Lacan, O Seminário – Livro 4, p. 223).

 

Para o diretor Pedro Almodóvar, assim como para Lacan, só habitamos o Real quando há perversão. Em seu último filme, “A pele que habito”, além da metáfora óbvia, onde a pele discutida é a sexualidade, tema inexaurível para o diretor. Temos no centro a mutação sexual provocada pelo fetiche e a vingança perversa do doutor Robert Ledgard (Antonio Banderas). É na castração que Robert tenta interditar o sujeito, mas não é assim com todos nós?

Somos presos a nossas peles pela construção do discurso. Temos no nosso ventre o discurso heterossexual, branco, masculino, cristão e de classe média – quando caminhamos para a contracultura somos interditados.

Nesse caso, Almodóvar inverte a prisão para que nós, leigos, possamos entender como a maioria, presa numa pele heterossexual, é privado da busca pelo objeto perdido. No filme, Vera é, na verdade, Vicente, castrado e aprisionado no corpo de uma mulher.

Sabemos, por Freud, que somos seres faltantes e que, na maior parte da vida, estamos aprisionados nessa pele construída e, por isso mesmo, somos angústia e fetiche, somos fobia e castração.

Lembro com nostalgia da efeméride gay dos anos 70, pura libertação e contestação. Nos dias de hoje, fico indignado quando o momento gay reivindica casar na igreja e entrar no exército, duas das instituições mais conservadoras da sociedade moderna. Infelizmente, a maior parte da desvergonha daquela década foi varrida pelo vírus HIV. Talvez a doença mais machista e conservadora que a humanidade já teve. É claro que a construção do estigma é discursiva. O discurso, como disse Foucault, não é uma via de mão única. Ele pode se tornar a República de Weimar ou pode desembocar no nazismo.

Conheci, certa vez, um professor espanhol que dizia que suas tias idosas, com mais de 70 anos, esperavam ansiosas a cada filme do Almodóvar. Pedro é esperto e conhece nossas fantasias: é nessa reciprocidade imaginária que ele pinta de vermelho suas telas.

Castração, fetiche, perversão, está tudo ali e Almodóvar subverte a pele em que habitamos.


O DISCURSO EM O DISCURSO DO REI

02/04/2011
1 Comentário

Há algo no filme “O discurso do rei” que vai além das perfeitas atuações de Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham-Carter. Para ler o discurso do rei, é preciso entender o que torna um ser humano parte integrante do discurso construído à sua volta.

As palavras pronunciadas por George VI não são desprovidas de seu próprio mito. Como afirma Barthes, em Mitologias (Difel, p. 152): “O mito é sempre um roubo de linguagem”. O discurso de George VI é escravo de sua própria história – a história dos povos ingleses.

Mesmo com pompas de modernidade e falando sobre uma guerra contemporânea, mesmo quando parece desorbitar de sua essência, tentando dar moral a um “real cínico”, esse discurso volta a rodear as suas próprias margens como um navio com bússola viciada.

Desde a assinatura da Carta Magna, o povo britânico luta para que seu rei fale pelos seus. A diferença histórica entre a França, onde a família real pensava só por si e, por isso mesmo, caiu diante da República e dos Jacobinos, e a Inglaterra, faz-se presente no filme. Na Inglaterra, a nobreza, diferentemente de outras, é ao mesmo tempo também burguesa (os chamados gentry), pois sabe que se limitasse os poderes do rei criaria – desde a assinatura da Carta – um mito discursivo que falaria pelo seu povo.

O discurso do rei, portanto, não fala da antiga retórica aristotélica, como podemos supor em sua superfície, mas sim da construção discursiva de uma nação, algo mais profundo, como podemos entrever na cena duplicada do elevador, em que a esposa do rei (e futura rainha-mãe) não consegue fazer funcionar o elevador sem fechar a primeira porta, de fora, para só depois cerrar a porta de dentro.

A gagueira de George VI era símbolo do sentimento de um futuro rei que não sentia, ainda, que falava em nome de seu povo. Vencido esse sentimento, George VI e seu discurso, sobre a delcaração de guerra contra a Alemanha nazista, entraram para a história. O que sabemos, no entanto, é que esse discurso já existia nas ruas de Londres.

Como certa vez disse Paulo Leminski, o poeta, em Distraídos venceremos: “Nenhuma página jamais foi limpa / Mesmo a mais Saara, ártica, significa. / Nunca houve isso, uma página em branco. / No fundo, todas gritam, pálidas de tanto”.


SOBRE FANTASMAS E PALAVRAS

21/11/2010
1 Comentário

Perguntaram-me se os fantasmas existem. O que respondi? É claro que sim! São os fantasmas que traçam as linhas do tear do texto para além de quem o escreveu. Eles tecem como um verdadeiro autor a organização do caos que se constrói: o discurso. Eles dão sentido à revoada das palavras e, como duendes mitológicos, espreitam-nos na próxima linha.


IMAGINÁRIO, SIMBÓLICO E REAL

Imaginário e simbólico são duas coisas distintas. O imaginário refere-se à totalidade dos nossos sonhos. O simbólico, como signo que é, distingue, agrupa e explica.

O fato não se concretiza quando você o vê, mas sim quando a memória o refaz na sua mente.

Nós não vemos com os olhos, vemos com a mente.

Toda obra de arte simplifica a realidade. No cinema, ela – a realidade – se dá na dramaturgia, e não para servir como explicação do mundo.

As minhas amarras com o “real” eu já não as tenho, pois em um dia de manhã ensolarada matei minha mãe…

O “eu” é subversivo, o “nós” é o refúgio dos covardes.

Os gregos não escreviam obtuários. No velório, perguntavam: “Ele viveu com paixão?”.


DE PALAVRAS E SENTIMENTOS

“A despalavra me salva da realidade”.

“No cinema, a loucura inventa a minha razão”.

“No futebol, o gol é a sublimação do imponderável”.


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